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Os musicais carnavalescos

Sob o controle estatal

Na década de 1930, o Estado começou a intervir na arte. Essa ingerência é decorrente da Revolução de 1930, que transfere o poder da oligarquia rural para os setores urbanos da classe média, uma burguesia industrial emergente. As autonomias estaduais – suporte das tradicionais famílias oligárquicas – começam a perder força. É o início da constituição do Estado brasileiro como Estado nacional, com a crescente centralização do Poder Executivo federal nas políticas econômica e social. A instauração do Estado Novo (1937-1945), que impôs ao país uma nova Constituição de tendência fascista, consolidaria esse processo.

Centralizador e defensor da industrialização no país, o presidente Getúlio Vargas implementa uma série de reformas de caráter social, administrativo e político. A propaganda política passa a ser um dos pilares do seu governo, que cria o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), um órgão de censura e divulgação – uma espécie de 'Ministério de Marketing' – do projeto nacionalista do Estado Novo. O sonho de transformar o Brasil em um país industrializado engloba, além do rádio e dos meios impressos, o cinema, que busca se firmar como indústria de entretenimento.

Leis protecionistas

Esse projeto ganha força com a mudança na legislação do cinema, instaurada por Getúlio Vargas para proteger a produção nacional: em 1932, o governo decreta a lei que obriga a exibição de cinejornais brasileiros (curtas-metragens) durante as sessões de cinema e, em 1939, institui a lei que impõe às salas de cinema uma cota mínima de exibição para filmes brasileiros. A política protecionista é adotada porque o cinema é visto por Vargas como um veículo estratégico de persuasão, que deve ser controlado e estimulado.

Do rádio para as telas

Carmen Miranda
Depois de uma década de ostracismo, o cinema nacional toma novo impulso com o início da era dos musicais. Nos anos 1930, são criadas as companhias cinematográficas cariocas Cinédia (1930), Brasil Vita Filme (1934) e Sonofilmes (1937). Esse período foi marcado por filmes musicais produzidos, principalmente, pela Cinédia, que inaugurou no país o modelo de estúdio de porte e lançou muitas cantoras de rádio no cinema, como Carmen Miranda, Dircinha Batista e Aurora Miranda.

Nesse período, a Brasil Vita produziu Favela dos meus amores (1935), um extraordinário êxito popular e de crítica, e Cidade mulher (1936), que tem a única trilha escrita por Noel Rosa para o cinema, ambos dirigidos por Humberto Mauro. Da Sonofilmes destaca-se o musical Banana da terra (1939), de João de Barro – película em que Carmen Miranda aparece cantando O que é que a baiana tem?, de Dorival Caymmi.

Os títulos eram lançados no final do ano, às vésperas do carnaval, para divulgar as marchinhas que, cantadas por diversos intérpretes, seriam sucesso garantido. Essas músicas também eram gravadas em disco e veiculadas nas rádios, o maior meio de comunicação de massa na época. Assim, as músicas carnavalescas eram amplamente difundidas no país.

Os musicais da Cinédia

Os primeiros estouros de bilheteria da Cinédia foram os musicais Alô, alô, Brasil! (1935), de Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro; Estudantes (1935), de Wallace Downey; e Alô, alô, Carnaval (1936), de Ademar Gonzaga, todos estrelados por Carmen Miranda. Esses filmes, mais tarde batizados de 'musicais carnavalescos', contavam com astros e estrelas do rádio e alguns entrechos cômicos.


A Cinédia também foi responsável por títulos como A voz do Carnaval (1933), de Humberto Mauro, que marcou a estreia de Oscarito na tela; Limite (1931), de Mário Peixoto, de pouca aceitação popular, mas hoje considerado um cult e um marco do cinema experimental; e O ébrio (1946), de Gilda de Abreu, com o cantor Vicente Celestino. Outro destaque do estúdio foi o cineasta Humberto Mauro, cujos filmes tinham um forte lirismo. Suas principais realizações foram Lábios sem beijos (1930), a primeira produção da Cinédia, e Ganga bruta (1933).

A companhia fundada por Adhemar Gonzaga (1901-1978) teve seus anos de ouro entre as décadas de 1930 e 1940. Após o grande sucesso de Alô, Alô, Carnaval, o estúdio carioca procurou diversificar sua produção, lançando a comédia musical romântica Bonequinha de seda, de Oduvaldo Vianna, em 1936, outro grande sucesso. A boa aceitação do filme, no entanto, não foi suficiente para ampliar a atuação da Cinédia no mercado cinematográfico e colocá-la num patamar capaz de competir com as superproduções de Hollywood.

Carmen Santos: primeira cineasta mulher no Brasil

A diretora e atriz Carmen Santos fundou o estúdio Brasil Vita Filme para competir com a Cinédia, em 1934. Portuguesa, veio ao Brasil com 8 anos de idade. Aos 15, já estrelava o seu primeiro filme, Urutau. Ambiciosa, dirigiu o filme Inconfidência Mineira (1947), que demorou dez anos para ficar pronto.


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