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O sonho da Hollywood brasileira

Vera Cruz: a 'fábrica de sonhos'

No final da década de 1940, a ânsia de modernização dos grandes centros urbanos brasileiros leva Rio de Janeiro e São Paulo a investirem na expansão de projetos culturais. As duas maiores cidades do país se envolvem numa disputa pela hegemonia da produção artística em diversas áreas, entre as quais o cinema. Na capital paulista, a burguesia industrial e intelectual emergente cria instituições como o Museu de Arte Moderna (MAM), em 1947, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em 1948, e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em 1949.

A Vera Cruz, concebida nos moldes do cinema industrial norte-americano de Hollywood, materializa o projeto de São Paulo de se tornar uma capital cosmopolita e marca uma nova fase de realizações do cinema nacional. Num caminho oposto ao da Atlântida – criada por produtores brasileiros com visão comercial, que utilizavam equipamentos de segunda mão –, a companhia paulista foi fundada pelo empreendedor Franco Zampari, de origem italiana, e por um grupo de empresários que investiram muito dinheiro no projeto e trouxeram para o Brasil técnicos da Itália e da Inglaterra.

Tecnologia de ponta

Tônia Carrero
Os estúdios da Vera Cruz, construídos em São Bernardo do Campo (SP), eram gigantescos, modernos e equipados com os melhores equipamentos disponíveis no exterior.
Foi assim que a Vera Cruz introduziu no cinema nacional um rigor técnico nunca antes visto pelos profissionais da área.
Cacilda Becker
Seu esquema industrial copiava o star system hollywoodiano, lançando nas telas atores consagrados do TBC, como Tônia Carrero, Cacilda Becker, Anselmo Duarte, Paulo Autran, Cleyde Yáconis e Jardel Filho.
A distribuição ficava a cargo de empresas norte-americanas, como a Columbia Pictures e a Universal. Os enredos eram escritos por renomados roteiristas, que produziam melodramas, dramas, adaptações literárias, musicais e documentários.

Produções caras e demoradas

Os filmes pequeno-burgueses da Vera Cruz eram bem diferentes das produções assinadas pela Atlântida. Enquanto a produtora carioca lançava chanchadas carnavalescas de baixo orçamento, cujos temas eram o samba, o futebol, a política, as situações cotidianas e o Carnaval, alinhavados com humor e cenas musicais, a companhia paulista se opunha a um Brasil mulato e popular, que não correspondia às aspirações estéticas de uma elite europeizada. Por essa razão, produzia filmes 'sérios' com altos custos.

Uma das mais dispendiosas e demoradas produções do estúdio foi Tico-tico no fubá (1952), de Adolfo Celi, protagonizada por Tônia Carrero e Anselmo Duarte. O filme narra a angustiada biografia do músico Zequinha de Abreu. O desperdício de dinheiro aconteceu numa cena de circo que demandou aproximadamente um mês para ser filmada, apesar de ser aproveitada em poucos minutos na versão final.



Prêmios internacionais


Entre os filmes produzidos pela Vera Cruz, muitos receberam prêmios internacionais e nacionais, como O cangaceiro (Lima Barreto, 1953), agraciado em Cannes com o Prêmio Internacional de Melhor Filme de Aventura e com a Menção Honrosa pela Música de Gabriel Migliori; Sinhá moça, que recebeu o Leão de Bronze em Veneza e o Urso de Prata em Berlim; Caiçara, aclamado com o prêmio Governador do Estado de São Paulo de Melhor produtor para Alberto Cavalcanti, entre outros. Destacam-se, também, Appassionata (1952), de Fernando de Barros, e Floradas na serra, de Luciano Salce, lançado em 1954.

O sonho desmorona

Apesar do entusiasmo, a Vera Cruz foi um fracasso comercial. Em 1953, com apenas cinco anos de atividade, o estúdio faliu. Os maiores problemas enfrentados pela produtora foram a lentidão na comercialização dos filmes e o desinteresse das distribuidoras norte-americanas (Columbia Pictures e Universal) em patrocinar a produção nacional. A inviabilidade comercial – mesmo com o sucesso artístico e de público – também decorreu da má divisão da receita: 50% do lucro eram destinados aos exibidores, que nada investiam na produção, e a outra metade era dividida entre o distribuidor (15%) e o produtor (35%), neste caso a Vera Cruz, que com esse montante cobria apenas as despesas. Ironicamente, o maior sucesso internacional do estúdio – O cangaceiro –, teve seus direitos vendidos à Columbia Pictures, que ficou com todo o lucro.

As dificuldades financeiras enfrentadas pela Vera Cruz nos anos 1950 não impediram a produtora de deixar um legado de 'qualidade' ao cinema nacional. Em seu rápido ciclo (1949-1953), a companhia promoveu uma melhoria técnica na fotografia, na montagem, na cenografia, no som e na encenação. Por outro lado, a crítica considera as produções da Vera Cruz um tanto artificiais, por tratar da realidade brasileira numa ótica burguesa, moldada nos padrões cinematográficos hollywoodianos. Até mesmo os filmes com temáticas regionais apresentam uma estética idealizada, comum às superproduções. Por esse motivo, a companhia ficou conhecida como a 'fábrica de sonhos'.




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