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O cinema novo

Cinema social

Na década de 1960, o cinema nacional passa por uma radical revolução estética e ideológica, ao realizar filmes de cunho social e
de forte engajamento político. Esse movimento, cuja proposta era renovar a linguagem cinematográfica e sintonizar a produção interna com a realidade brasileira, foi batizado de 'cinema novo'.
 
As ideias que originaram o cinema novo começaram a ser fomentadas no I Congresso Paulista de Cinema Brasileiro e no I Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, em 1952. O núcleo central do movimento originou-se de um grupo de jovens cineastas idealistas que se reunia em sessões semanais da cinemateca do Museu de Arte  Moderna, no Rio de Janeiro.

Descontentes com o rumo do cinema brasileiro nos anos 1950, os jovens intelectuais propunham a produção de filmes livres da estrutura industrial dos grandes estúdios, que se pautava em orçamentos astronômicos, no star system e em roteiros distantes da realidade social do país. A miséria social e a política eram os temas prediletos do movimento, que teve em Glauber Rocha seu maior expoente.

Influências

Joaquim Pedro de Andrade
A falência da Vera Cruz, em 1953, foi um dos fatores decisivos para que os cinemanovistas – como ficaram conhecidos os inquietos cineastas – se unissem
por um cinema que retratasse a realidade social com menor custo de produção.
Carlos Diegues
A Vera Cruz, apesar de ser um empreendimento realizado em São Paulo, serviu de parâmetro ao cinema novo como uma experiência econômica, técnica, cultural e artística a ser evitada.

A inspiração estética e ideológica do cinema novo veio do neo-realismo italiano, movimento que retratou a realidade social da Itália após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e da nouvelle vague, grupo de jovens cineastas franceses que se beneficiou de novas tecnologias (câmeras mais leves, portáteis, com gravadores acoplados ao som direto) para fazer um cinema mais experimental.

Nelson Pereira dos Santos
Glauber Rocha
A escola Novo Cinema, criada em Portugal, também deu impulso ao grupo dos cinemanovistas, formado pelos então jovens cineastas Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos,
Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Paulo Cesar Saraceni, Leon Hirszman, David Neves, Ruy Guerra e Luiz Carlos Barreto, entre outros.

Rio 40 graus

O filme Rio 40 graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, é considerado pelos especialistas como a obra inaugural do ciclo do cinema novo. Influenciado pelo neo-realismo italiano, o filme tem as características próprias do movimento cinemanovista: enredo popular, linguagem simples e baixo orçamento. A narrativa se desenrola no Rio de Janeiro, na época capital federal, em locações naturais, como o Maracanã, o Corcovado, as favelas e as praças urbanas, retratando patifes, soldados, favelados, crianças no mundo do crime e deputados.
 
Filmes engajados

As chanchadas foram o principal alvo de críticas do cinema novo. A liberdade cômica e o aparente 'descompromisso' dos filmes chanchadescos com as questões sociais se contrapunham ao engajamento de esquerda proposto pelo novo movimento cinematográfico. Para os cinemanovistas, as chanchadas refletiam nas telas a 'alienação cultural' do povo brasileiro.

Nas palavras de Glauber Rocha, o gênero cômico-poular não passava de um 'cinema populista', enquanto que para Walter Lima Jr. era “um filme único que se repetia a cada ano”. Já Cacá Diegues qualificava a chanchada como “o fim da picada, uma coisa de uma vulgaridade de paródia mal feita do cinema americano”.

Uma ideia na cabeça, uma câmera na mão

De 1960 a 1964, o cinema novo produz filmes voltados ao cotidiano e à mitologia do Nordeste brasileiro, retratando os trabalhadores rurais e as misérias da região. A temática da marginalização econômica, a fome, a violência, a opressão e a alienação religiosa também mereceram destaque.

Os filmes
Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, Os fuzis (1963), de Ruy Guerra, e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, são os que melhor expressam esse período, demarcado como a primeira fase do cinema novo.
 
Adaptação do livro de Graciliano Ramos, Vidas secas representou o Brasil no Festival de Cannes de 1964, onde predominou a temática do campo. Por sua vez, Deus e o Diabo na Terra do Sol, exibido na mesma edição do festival, apesar da ótima receptividade da crítica francesa, perdeu a Palma de Ouro para o musical Os guarda-chuvas do amor, de Jacques Démy.
 
Até hoje, Deus e o Diabo na Terra do Sol é apontado como o filme mais emblemático do auge do cinema novo, pela liberdade narrativa que valorizava movimentos de câmera na mão e planos-sequências (cenas captadas em um único take, sem cortes).

Para Glauber Rocha, autor da célebre frase "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão", o  projeto intelectual e artístico do cinema novo deveria se prestar à consolidação de uma identidade cinematográfica genuinamente nacional, libertária e desvinculada das interferências do colonialismo estrangeiro.


Desenvolvimentismo e Ditadura Militar


A segunda fase do cinema novo, entre 1964 e 1968, volta-se para a temática política. Filmes como O desafio (1965), de Paulo Cezar Saraceni, Terra em transe (1967), de Glauber Rocha, e
O bravo guerreiro (1968), de Gustavo Dahl, criticam a política desenvolvimentista e a Ditadura Militar do país.


Uma dose de tropicalismo

Em 1968, o discurso engajado do cinema novo perde sua força devido à eficácia dos instrumentos de repressão do regime militar. Apesar da censura, inicia-se a terceira fase do movimento, que se estende até 1972 sob a influência do tropicalismo, movimento avesso ao nacionalismo ufanista e à exclusão dos elementos estrangeiros na cultura brasileira.

Nesse período, o cinema novo passa a retratar um Brasil marcado pela exuberância e por personagens típicos, apropriando-se das formas alegóricas para driblar a Ditadura Militar.
Os filmes Cabeças cortadas (1970), de Glauber Rocha - curiosamente filmado na Espanha -, Quando o Carnaval chegar (1972), de Cacá Diegues, e Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, são representativos desse momento.

O título Macunaíma, inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, é o marco dessa fase. O filme refaz a trajetória do fanfarrão, sensual e depravado herói da literatura antropofágica. No longa, interpretado por Paulo José e Grande Otelo – um dos grandes atores da chanchada –, o personagem Macunaíma luta para ganhar dinheiro sem trabalhar. É um "herói sem caráter" no Brasil do AI-5 e da guerrilha rural e urbana.

O cinema novo foi, depois da Bela Época e da chanchada, o terceiro acontecimento global de importância na história do cinema brasileiro. A partir de 1973, a estilo alegórico adotado pelo cinema novo evolui para outras propostas estéticas, com o exílio de alguns cineastas e a queda no volume de produções.



Fique Ligado!

Em 1962, o Brasil ganhou sua única Palma de Ouro em Cannes, com o filme O pagador de promessas, de Anselmo Duarte. Simples e com uma linguagem convencional, o longa foi feito à margem do cinema novo, apesar de ter sido filmado no auge do movimento. Motivo? Anselmo Duarte, o galã mais popular do Brasil em toda a década de 1950, não fazia parte do grupo cinemanovista.

 


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