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Graciliano: um mestre na construção de seres

Em carta enviada à irmã Marília, em novembro de 1949, Graciliano Ramos registrava: “Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos".
E assim parece ter sido. O escritor construiu seres inesquecíveis, criaturas de carne e ossos, músculos e nervos. Escreveu um autorretrato que vale a pena ser lido:

Auto-retrato
Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas. Casado duas vezes, tem sete filhos. Altura, 1,75. Sapato n.º 41. Colarinho n.º 39. Prefere não andar. Não gosta de vizinhos. Detesta rádio, telefone e campainhas. Tem horror às pessoas que falam alto. Usa óculos. Meio calvo. Não tem preferência por nenhuma comida. Indiferente à música. Não gosta de frutas nem de doces. Sua leitura predileta: a Bíblia. Escreve Caetés com 34 anos de idade. Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados. Gosta de beber aguardente. É ateu. Indiferente à Academia. Odeia a burguesia. Adora crianças. Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Gosta de palavrões escritos e falados. Deseja a morte do capitalismo. Escreve seus livros pela manhã. Fuma cigarros Selma (três maços por dia). É inspetor de ensino, trabalha no Correio da Manhã. Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo. Só tem cinco ternos de roupa, estragados. Refaz seus romances várias vezes. Esteve preso duas vezes. É-lhe indiferente estar preso ou solto. Escreve à mão. Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio. Tem poucas dívidas. Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas. Espera morrer com 57anos.”


Morreu aos 61 e fez uma literatura extraordinariamente importante; à exceção de Vidas secas, toda a sua produção narrativa é feira em primeira pessoa e, com isso, inicia, ainda na década de 1930, no Brasil, a chamada literatura de sondagem interior, em que o narrador descreve, sobretudo, os sentimentos e emoções das personagens.
Ao morrer, em março de 1953, achava que não merecia o que diziam e escreviam de sua literatura e que seus romances eram todos “chinfrins” (insignificantes); nascido em uma família de classe média, teve muitos irmãos, apanhou excessivamente do pai e foi considerado uma espécie de ovelha negra da família.

Ficou preso como subversivo de 1936 a 1937. Seu livro Memórias do Cárcere (1953, edição póstuma) é depoimento desse episódio. Entre idas e vindas para o Rio, foi prefeito, observador do mundo e um criador de tipos humanos inesquecíveis; entre eles, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos. Denunciou o universo da extrema miséria dos nordestinos submetidos a trabalho subumano, sob o jugo de patrões aproveitadores.
Foi comunista e ateu, mas sua leitura preferida era a Bíblia, ou seja, um paradoxo.

Obras
 
Romances
Caetés (1933)
São Bernardo (1938)
Angústia (1936)
Vidas Secas (1938)
 
Conto
Insônia (1947)
 
Memórias
Infância (1945)
Memórias do Cárcere (1953)
Viagem (1954)
Linhas Tortas (crônicas,1962)
Viventes das Alagoas (1962)
Literatura Infantil:
Histórias de Alexandre (1944)
Dois dedos (1945)
Histórias incompletas (1946)
 
 

 


 
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