Você Sabia? Mitos e lendas - Macunaína, Mário de Andrade reelabora temas da mitologia indígena com visões folclóricas da Amazônia e do resto do Brasil, fundando assim uma nova linguagem literária, bem brasileira.
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Macunaíma é o filho mais novo de uma família de índios que vivia nas margens do rio Uraricoera, na Amazônia. Preguiçoso, manhoso, matreiro e mentiroso, desde pequeno não deixa de arranjar encrenca com os irmãos. Com a morte da mãe, os irmãos resolvem sair pelo mundo.
Macunaíma casa-se com Ci, a mãe do mato, tornando-se o Imperador do Mato Virgem. Depois de perderem um filho, Ci morre e lhe dá uma pedra verde que serve de amuleto: o muiraquitã. Num confronto entre os irmãos e um monstro chamado de Boiuna Capei,
Macunaíma perde o seu amuleto, mas descobre que a pedra foi engolida por uma tartaruga tracajá na praia do rio.
Resgate. Um homem pega o bicho e encontra o amuleto, vendendo-o a um mascate peruano que mora na cidade de São Paulo, de nome Venceslau Pietro Pietra. Os três irmãos vão até São Paulo resgatar a pedra e descobrem que o mascate peruano é, na verdade, o gigante Piaimã, comedor de gente. Seguem-se várias aventuras entre eles, sendo que dessas aventuras, contadas como se fossem lendas, nascem várias tradições e costumes do povo brasileiro, como o jogo de truco e a festa do Bumba-meu-boi. Por fim, trava-se o confronto final entre Macunaíma e Venceslau Pietro Pietra. Macunaíma vence e recupera o amuleto.
Vingança. De volta à Amazônia com os irmãos, Macunaíma recebe da deusa-sol, Vei, suas duas filhas. Envolve-se, no entanto, com uma portuguesa, o que causa insatisfação em Vei. Esta, por vingança, atrai Macunaíma até um lago onde uma moça de nome Uiara o seduz. O índio acaba por se entregar aos desejos da moça do lago e tem os membros de seu corpo comidos pelos peixes. Desgostoso da vida, sem o amuleto e sem os irmãos (transformados, numa das peripécias, na sombra leprosa e segunda cabeça do pai do urubu), vai até o feiticeiro Piauí-Pódole, que o transforma na constelação de Ursa Maior.
Cenário
Mário de Andrade conta que escreveu
Macunaíma em seis dias, deitado, bem à maneira de seu herói, em uma rede na “Chácara de Sapucaia”, em Araraquara, SP. Diz ainda: “Este livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro”. A obra é fruto de anos de pesquisa das lendas e mitos indígenas e folclóricos que o autor reúne utilizando a linguagem popular e oral de várias regiões do Brasil.
Trata-se, por isso mesmo, de uma rapsódia, termo que os gregos usavam para designar obras como a Ilíada ou a Odisseia de Homero, que reúnem séculos de narrativas poéticas orais, resumindo as tradições folclóricas de todo um povo.
As estripulias sucessivas de
Macunaíma são vividas em um espaço mágico, próprio da atmosfera fantástica e maravilhosa em que se desenvolve a narrativa. Em seu Roteiro de
Macunaíma, Cavalcanti Proença afirma que
Macunaíma se aproxima da epopeia medieval, pois "tem de comum com aqueles heróis a sobre-humanidade e o maravilhoso". Ainda segundo Cavalcanti Proença, "
Macunaíma está fora do espaço e do tempo. Por esse motivo pode realizar aquelas fugas espetaculares e assombrosas em que, da capital de São Paulo, foge para a Ponta do Calabouço, no Rio, e logo já está em Guarajá-Mirim, nas fronteiras de Mato Grosso e Amazonas, para, em seguida, chupar manga-jasmim em Itamaracá de Pernambuco, tomar leite de vaca zebu em Barbacena, Minas Gerais, decifrar litóglifos na Serra do Espírito Santo e finalmente se esconder no oco de um formigueiro, na Ilha do Bananal, em Goiás".
A personagemMário de Andrade nunca escondeu que se inspirou na obra Vom Roroima zum Orinoco (Do Roraima ao Orenoco), do etnógrafo naturalista alemão Theodor Koch-Grünberg, publicada em cinco volumes entre 1916 e 1924. Nas lendas de heróis taulipang e arecuná, apresentadas por Koch-Grünberg, Mário de Andrade encontrou o herói
Macunaíma que, segundo o estudioso alemão, "ainda era menino, porém mais safado que todos os outros irmãos". Foi, portanto, na obra de um estrangeiro que Mário de Andrade, paradoxal e muito antropofagicamente, encontrou a essência do brasileiro.
Macunaíma é um personagem outsider, marginal, anti-herói, fora da lei – na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna, organizada em um sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente subvertido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras do passado, estabelecendo-se um curioso “diálogo com os mortos”:
Macunaíma fala com João Ramalho (séc. XVI), com os holandeses (séc. XVII), com Hércules Florence (séc. XIX) e com Delmiro Gouveia (pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura).
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